Referência Na Dança A Dois. Tudo Fica Mais Claro.

Um dos recursos mais importantes para que a comunicação na dança ocorra de maneira eficiente é a referência. Só através dela é possível atingir uma dança limpa, ágil e complexa sem perder o conforto e sem colocar o corpo em risco de lesões. Quando a referência está em falta, o recurso que nos resta para tentar sermos ágeis e complexos é a força, dessa forma, limpeza e conforto são automaticamente descartados.

Neste texto vou me ater à referencia na parte aberta (afastada) da dança, principalmente nas danças com abundancia de giros. A referência na parte fechada está esclarecida no texto sobre contato: ( Contato na dança a dois, enxergando sem os olhos). As dicas deste texto se aplicam muito às danças não lineares porém também ajudam os dançarinos a permanecerem na linha nas danças lineares.

Não se assuste se você não compreender os parágrafos finais. Foi feita uma progressão de acordo com o grau de complexidade que a dança a dois pode atingir. Procure um profissional qualificado para te explicar aquilo que você não compreendeu. Lembre-se também que profissionais qualificados poderão cobrar para compartilharem seu conhecimento, afinal é o nosso trabalho!

Primeiras noções

A primeira forma de pensar em referencia é na verdade um raciocínio muito simples, quando você está em uma dança a dois, só existe apenas uma pessoa além de você, procure-a a toda instante. O raciocínio é simples mas a tarefa pode não ser, durante a dança ficamos tão concentrados em coordenar nossos próprios movimentos que muitas vezes esquecemos do mundo exterior. Por isso é muito interessante já trabalhar a referência como mais um elemento a se coordenar, desde as primeiras movimentações.

A ideia é criar um magnetismo entre o par, o tempo todo as movimentações, giros, formas e desenhos diversos contribuem para que o par se afaste. Então cada um deve se prontificar à se reaproximar de forma ativa e autônoma, procurando, sempre que possível, encontrar-se de frente de corpo inteiro (é muito comum a pessoa não perceber que está de lado para o par quando está apenas virando o pescoço, sendo capaz de enxergar o par com clareza mesmo não estando realmente virada de frente.).

Apesar desta primeira orientação já contribuir imensamente coma comunicação, ela não mata todas as possibilidades da dança, por vários momentos é preciso estar de costas, de lado ou em rotação para cumprir todas as exigências de uma dança a dois, portanto precisamos de modelos mais detalhados e menos genéricos.

Encontrem-se de frente sempre que marcarem o 1 (primeira pisada após a pausa)

Essa é um dica que cabe muito bem para principiantes, quando começamos a dançar todas as informações são muito complexas e o corpo precisa se acostumar com todas as novidades, portanto estabelecer um ponto de encontro que seja igual para os dois e que ocorra no mesmo momento para os dois, pode ajudar muito na tentativa de começar a lidar com o mundo externo.

Esse modelo é muito limitado, porém. Ele não contempla as demais pisadas e também não contribui para um abertura de espaços eficiente.

Não perder o par da sua frente nos momentos em que não está girando.

Essa já é uma noção mais clara de se aplicar, porém exige um alto grau de consciência de marcação e contagem para não deixar as marcações de base se perderem. É muito comum que haja alternância nos momentos de giro de uma dança a dois, ou seja cada hora um gira, ou por várias vezes o seu par gira mais de um movimento com giro consecutivo. Dessa forma toda vez que não for a sua vez de girar procure ajustar seu posicionamento a cada pisada de forma a não deixar o par escapar da sua frente em nenhum momento. Existem também movimentações em que o par não gira porém se desloca, também é um momento oportuno pra não deixar com que a sua referência se escape.

As movimentações que exigem de forma clara que o par vire de lado ou de costas simultaneamente, não devem deixar de existir, apenas lembre-se de procurar o seu par de volta tão logo a movimentação específica acabe.

Não perca de vista a posição do seu par quando você estiver girando.

Essa tarefa parece deixar as deixar as coisas mais difíceis, mas é sempre bom lembrar que temos mais sentidos do que apenas a visão. A visão será muito importante sim para ter uma noção inicial da posição do par e para as pessoas que gostam da técnica de bater cabeça( Quando a cabeça foca em um único ponto e fica olhando para esse ponto mesmo com a rotação do corpo até não ser mais possível, neste momento vira a cabeça de forma muito rápida para olhar novamente para o mesmo ponto. A cabeça é a ultima a começar a girar e a primeira a chegar no destino final.), pois podem eleger o par como ponto fixo. Muitas pessoas gostam de bater cabeça em um ponto fixo fora da dança, isso não é errado porém não podem deixar a referencia se perder por causa disso.

A forma de usar a referencia sem a visão, e através dos braços, e é bem simples. Toda vez que estiver com qualquer mão dada a seu par ajuste seu corpo,ao final do giro, de forma que seu braço fique na posição mais natural possível (braço ao lado do corpo estendido ou tendendo a se estender estritamente para frente formando um angulo de 90 graus com o tronco. Se o seu braço estiver em “chave” (dobrado nas suas costas) vire o seu corpo até o seu outro braço sentir vontade de passar por cima do braço do par para que não fique preso. Se um braço estiver em chave e o outro não siga a primeira dica deste paragrafo com o braço que não está em chave.

Essas dicas parecem ser dadas apenas para os conduzidos mas também se aplicam aos condutores. Só agora teremos uma separação de papéis. E mesmo assim leia a parte do papel que você não costuma desempenhar, pois compreender as ações e estratégias das duas funções é primordial para conseguir se comunicar de forma eficiente.

CONDUZIDO pisa a PRIMEIRA pisada APÓS a pausa virado de frente para onde o CONDUTOR estava na ÚLTIMA pisada ANTES da pausa.

Leve um tempo para digerir esta informação, ela parece complexa mas não é tanto. Escolher uma posição do passado é a única forma de conseguirmos eleger um ponto de referência que não está em movimento. Ao dançarmos estamos o tempo todo saindo da nossa posição então se eu não “congelar o tempo” vou estar sempre correndo atrás de algo que não para.

Quando usamos essa premissa a dinâmica de abertura de espaços começa a fazer mais sentido. Se na pisada 1 o condutor está no mesmo lugar que estava na pisada antes da pausa, o espaço está fechado. Se na pisada 1 o condutor está em um local diferente do que estava na pisada antes da pausa o espaço está aberto para o conduzido entrar.

Conduzido avança a pisada dois.

Já discutimos em outro texto os benefícios de se avançar a pisada dois no forró, porém as ideias do texto também se aplicam muito bem em várias outras danças. Com o espaço já determinado na pisada um o conduzido pisa o dois estritamente na direção do condutor se o espaço estiver fechado. Se o espaço estiver aberto a segunda pisada vai estritamente em direção ao espaço de forma a ficar o mais próximo do condutor o possível.

Cuidado avançar a pisada dois para locais não pensados, locais não baseados no posicionamento do seu par, irá levar a sua dança na contramão da eficiência. É muito comum pessoas pisarem a pisada dois para a lateral da dança levando o corpo a criar uma inércia para um local péssimo estrategicamente, matando a fluência da movimentação e exigindo um esforço enorme por parte do conduzido para corrigir o deslocamento nas pisadas seguintes. E comumente gera puxões por parte de condutores inexperientes.

Enquadramento

O enquadramento é uma parte crucial da referência. Normalmente ocorre na terceira pisada. Deve ocorrer no momento em que o par se cruza pra fazer uma passagem ou uma troca de lado. O enquadramento se dá com o conduzido passando de frente, de forma paralela ao corpo do condutor, cada ombro estando alinhado com o ombro correspondente do par. Os enquadramentos mais comuns são os que os dois estão de frente um para o outro ou então a parte da frente de um se enquadra com as costas do outro.

Situações mais específicas podem ocorrer de o conduzido enquadrar com a lateral do corpo do condutor, nesta ocasião o obro do condutor deve estar alinhado como meio do corpo do conduzido, que por sua vez terá um obro antes e um obro depois doa posição do ombro do condutor. Os dois corpos formam um angulo de 90 graus.

É crucial que todo enquadramento seja feito com os corpos bem próximos um do outro, pois é o momento em que o desenho dos braços está no seu auge, e quando mais próximos um do outro mais disponibilidade os braços terão par serem trabalhados sem dar puxões e com menos risco de as mãos se soltarem. É também o momento em que a linha do conduzido encontra sua referência final nos movimentos com giros lineares.

Ambos devem ser responsáveis por gerar um bom enquadramento.

Condutor vira Conduzido

Nas movimentações com giros longos (mais de 3 pisadas) é muito comum o conduzido se afastar do condutor após a terceira pisada. Isso acontece pois a pisada 3 é o ponto em que o par se cruza seja numa troca de lado ou seja em uma passagem. Se a movimentação acabar em 3 pisadas é de se esperar que o par esteja bem perto. Se a movimentação tiver mais que 3 pisadas essas demais pisadas tendem a gerar um afastamento cada vez maior. E o mais comum é que movimentações com mais de 3 pisadas sejam giros do conduzido.

O condutor por sua vez precisa acompanhar o conduzido seja onde o conduzido for. Espere um poucos! Se eu fiz uma condução eu espero que o conduzido vá pra onde eu estou “mandando”!

É aí que a maioria dos condutores se perdem. Com certeza o comando do condutor tem um destino pré estabelecido como objetivo, porém inúmeros fatores (condução mal preparada, condução mal finalizada, excesso de força, falta de maleabilidade nos braços, erros de marcação, desequilíbrios etc etc etc… ou o fator mais comum, falta de boas noções de referência) podem contribuir para que o conduzido acabe não indo para o direção que o condutor desejava. É nesse momento que o condutor deve sair da sua posição de condutor e “virar conduzido”, e assim acompanhar a trajetória realmente tomada pelo conduzido. Esse acompanhamento é como se fosse uma perseguição. Onde o conduzido for o condutor vai atrás.

Conclusão

A referência na dança é fundamental para um deslocamento eficiente utilizando de maneira estratégica a sua energia. uma dança atenta aos conceitos de uma boa referência vão permitir uma fácil conexão entre movimentos encadeados fazendo com que a complexidade da dança aconteça de forma fluida, leve e confortável. O conforto que a referência gera não é apenas físico, ele também é um conforto mental, pois nossos movimentos estão sempre baseados no nosso par nos deixando seguros para tomar as decisões certas.

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